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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Uma carta a Clarice

Querida Clarice,

Hoje resolvi escrever-te por achar que deveria ouvir o que as pessoas falam de ti por aí. São pontos ímpares que a fazem brilhar tanto quanto a visão de um raio solar logo após o abrir dos olhos noturno.

A forma como descreve a partida de um carro em “A maçã no escuro” é de uma sensibilidade tão extraordinária e peculiar que me faz questionar sua sobriedade naquele instante. Um carro vermelho está parado em uma rua escura, ao invés de dizer “ligou o motor e partiu”, Clarice minha amiga, você escreve “o motor do carro se sacudiu e lentamente o escuro se pusera em movimento”.

Me diz por favor a forma de enxergar a vida ao contrário, de outro ponto de vista porque ainda não aprendi. E é tão bonita a perspectiva desse ângulo, que a situação mais simplória, parece-me de uma beleza espetacular. Você encontrou perfeição onde não havia, fez a noite ganhar movimento e existir enquanto ser e não apenas como fenômeno da natureza.

E o que dizer do silêncio se refazer dentro do silêncio? Como posso imaginar isso acontecer? Me sinto quase uma monge na mais profunda meditação. Acho que foi a partir desse momento que fiquei com vontade de te dizer essas palavras e perguntar por Martin, como ele suspirou dentro de seu largo sono acordado?

Esse texto só faz sentindo porque você escreveu este livro, senão haveria de achar que sou louca e estou a inventar coisas inúteis. Mas apreciar as diferenças perspectivas me faz perceber o quanto minha visão é pequena sobre esse mundo, e há tanta coisa a se observar e considerar.

Jamais conseguiria descrever o cheiro do ar límpido e puro como o faz quando diz que “o homem sentia nas narinas aquela aguda falta de cheiro que é peculiar a um ar muito puro”, de fato o sinto da mesma forma, mas não poderia descrevê-lo assim. Mencionaria que quando o sinto, o comparo a falta de ar, pois preenche-me com tanta qualidade que já não consigo perceber se estou completa e começa a me faltar uma falta que não existe, entende?

E a descrição da escuridão? Todo o começo da narrativa gira em torno de um homem suspeito que foge de onde está e começa a vagar na escuridão. A forma como descreve a caminhada através dos sentidos, me faz reviver o trajeto que o personagem seguiu, é como se estivesse lendo o livro de olhos fechados e ouvindo apenas a sua voz a me guiar.  Como conseguiste esse fascínio?

A descrição da liberdade através de um homem no deserto também me impressiona. A decisão de escolher o dia da semana que seria aquele dia, fazendo-o se sentir supremo por ser dono de si mesmo e do mundo me faz lembrar de um dos aforismos de Baltsar Gracian em que ele reverencia o individualismo, descrevendo como um sábio basta a si mesmo.  Ele até mesmo compara o valor de um amigo ao valor de um universo inteiro, e por isso diz que a melhor a amizade é aquela que se tem consigo mesmo, podendo viver portanto, em absoluta solidão. “Quem poderá lhe fazer falta se não há nem melhor opinião nem melhor gosto que o seu”. A solidão traduzida como libertação, quem diria.

E há símbolo maior de liberdade senão um passarinho? Pois bem, você achou de incluí-lo na narrativa, mas o prendendo nas mãos do homem, não de um jeito grosseiro, mas como você mesmo diz: “com a bondade física que tem uma mão pesada”. E essa mesma mão consegue sentir o passarinho como um “punhado de asas vivas” de tal forma que só quem um dia segurou um ser como este nas mãos sabe a fragilidade que sente ao tocá-lo e ao mesmo tempo experimenta o contraste da força vinda da energia da vida ali contida num pequeno espaço. Concluindo com absoluta surpresa que o passarinho não se sentia sufocado, mas gostara de estar dominado, você finaliza com “olho miúdos que se fecham como doçura de fêmea”. Não consigo não me apaixonar Clarice. Não consigo.

E a reflexão que propõe quando admite que Martin está há duas semanas caminhando sem pensar, e que deixar de ser inteligente, enfim o liberta, me deixa assustada. Será que precisamos de um tempo livre, sem pensar, sem raciocinar, para existirmos de alguma forma pura e concreta como de fato somos?

A realidade que se vive imitando as coisas da vida, os gestos dos outros e até mesmo a compreensão são tão mais comuns hoje em dia com a internet do que no seu tempo. Você ficaria assustada com a quantidade de pessoas-cópias que temos hoje. Discursos inflamados, sem originalidade. Basta assistir vídeos antigos no youtube, entrevistas da década de 60, e verás que argumentos tanto de “um lado”, como de “outro” continuam os mesmos.

Realidade tão diferente da qual você coloca Martin. Ele está tão liberto, que não sente culpa por seus atos, a solidão não lhe traz julgamentos, ele não fica atormentado. “Dentro da dimensão de um rato aquele homem cabia por inteiro”. Sem reflexões, paixões, tristezas. Mente leve como um fio de cabelo, seu vazio ressoava como uma catedral fechada.

Vivemos numa sociedade que muitas vezes imita a nossa atitude, que já é por si só cópia de algo que existiu. O que trazemos de novo para esse mundo, o que acrescentamos? Já parou para analisar sobre isso? Martin teve que fazer com que os outros o rejeitassem para que ele chegasse a si mesmo. Porque os outros constituíam cópias dele, e assim não poderia se observar como de fato é.

O certo é que Martin cometeu um crime, e com todo esse delírio de viver o que se é, transformou em sua mente uma história terrível e assustadora em algo bom. Como se descrevesse o ato como um artista que pinta uma mesa do avesso em uma tela, e ninguém sabe dizer o que é porque mudara o ponto de vista do objeto. Lembre-se do Pequeno Príncipe e o desenho do elefante. Diversos pontos de vista. O dele não é igual ao seu, nem igual o meu, porém todos frutos de outras existentes percepções. Qual a certa? Como julgar? Todos podem ser certos, todos podem estar errados, não há definição, são conceitos frágeis.  

Chego ao final desse texto somente por agradecer, querida Clarice, a inspiração que me traz, sempre consigo expor todas as palavras que gostaria quando toco em algum texto seu, você é fonte de inspiração, continua viva e eterna!




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Resenha – Livro “O pênalti perdido”

                É difícil encontrar um homem que em sua infância não teve o desejo de ser jogador de futebol. São raros os que tinham outros desejos ou foram fisgados por outros atrativos, principalmente os mais velhos, que não tiveram contato com computadores e smartphones avançados.

O principal veículo de comunicação era a televisão, e enquanto o entretenimento feminino girava em torno das novelas, os homens eram encantados pelos diversos campeonatos de futebol, brasileirão, estadual e por aí vai... Ressaltando que a divisão sexual relatada aqui não é imposta como uma regra, meu ponto de vista destaca uma visão geral, o que ocorria com a maioria.

Sendo assim, vale a pena a leitura de “O pênalti perdido”, do autor Marcus Borgón,  principalmente para os amantes de futebol que como muitos, não conseguiram realizar o tão desejado sonho de ser jogador, mesmo que tivessem as habilidades necessárias para estar em campo profissional.

De leitura leve e objetiva, o primeiro ponto que destaco como interessante no livro é o formato. Ele tem uma capa que já vem com um marcador embutido, não precisa se preocupar em ter um. Na verdade, o livro é pequeno, dispõem de 47 páginas de escritos frenéticos, com pitadas de humor e decepções de vida comuns a qualquer habitante da Terra, não dá vontade de parar de ler.


 A história retrata uma pequena parte da vida do jovem Marcelo, que tem uma existência marcada por mudanças de cidades em função da tentativa do pai de encontrar melhores empregos, e com isso a falta de amizades consistentes e relacionamentos fixos fazem parte também do seu cotidiano.

O primeiro obstáculo na vida do que seria esse futuro jogador de futebol é a opinião do pai que não gosta de jogo, prefere leitura e música clássica. Em contraste com o que presenciamos hoje na vida das crianças, em que o pai geralmente é o maior motivador para a vida voltada ao esporte.

Mesmo assim, percebe-se pelas descrições feitas pelo autor que Marcelo tem um talento nato, é um bom meia-esquerda, se destaca entre os demais no campo. Com isso pode-se notar também que o solitário menino que vive de cidade em cidade, mudança em mudança, consegue se socializar através do esporte.

Na verdade, o principal ponto do livro pra mim é a forma como o jovem se socializa através do esporte. Percebe-se pelo detalhe das descrições referentes aos amigos (que o autor apresenta do ponto de vista em 1ª pessoa), o aspecto físico, os apelidos engraçados ou no mínimo estranhos de cada, a riqueza dos diálogos e histórias, que o garoto de 13 anos não fala muito, mas observa bastante o mundo ao redor.

Geralmente pessoas assim não são o centro das atenções, dispõem de poucas amizades e quando se destacam em meio a multidão é através de algum talento que não seja a persuasão oratória, ou melhor, como baiano diz, "a lábia".  Nesse ponto me identifiquei bastante com o garoto, porque também sou assim. 

Entretanto, esse não é o foco do autor, pelo menos na minha interpretação, afinal ele já começa o livro narrando a pior decepção da vida de Marcelo: um pênalti perdido.  Infelizmente não foi um erro simples, perdoável, uma batida sem talento daquelas que a gente logo esquece, foi um pênalti super mal batido que ao invés de fazer a bola chegar próximo ao gol, saiu pela lateral num importante campeonato de bairro.

Nesse momento, toda fama e amizade que Marcelo tinha em função de ser um bom meia-esquerda cai por terra. Ele vira motivo de piada no bairro. Os garotos não o chamam mais para jogar futebol, sua autoconfiança despenca numa velocidade assustadora e ele retorna para refúgio solitário de uma vida sem sal nem açúcar. 

Há outro momento importante na vida do jovem, mas perderia a graça se eu contasse nesse texto, então sugiro que adquiram o livro, pois é muito fácil se identificar com a narrativa do autor, mesmo que a opção preferida não seja futebol. 

Onde é possível encontrar:

https://www.amazon.com.br/Penalti-Perdido-Marcus-Borgon/dp/8583250405

https://www.facebook.com/MVBorgon?fref=ts







terça-feira, 14 de abril de 2015

Segundo dia: contemplar, contemplar, contemplar



No segundo dia de viagem, o corpo não parava de brigar com a mente, isto porque estávamos nos acostumando com o fuso horário. A diferença do horário de Portugal é de três horas a mais em relação ao Brasil, com isso, acordávamos tarde e dormíamos quase perto do amanhecer, entre outras palavras, trocávamos literalmente o dia pela noite. 

Outro fator que colaborou com o cansaço foram as 12 horas dentro do avião,  o cochilo nunca é igual ao da nossa caminha, eu mesma quase não dormi e confesso que invejei uma japonesa que estava do meu lado, a mocinha simplesmente desmaiou na poltrona, só acordava para se alimentar.

Mas, voltando ao turismo e a parte que interessa, nosso primeiro destino foi um passeio a Praça do Comércio que fica localizada entre a rua Augusta e rio Tejo.  Vale salientar que é um lugar enorme, onde as pessoas contemplam a beleza do rio, crianças brincam, artistas de rua tocam seus instrumentos e pombinhos são alimentados pelos transeuntes.

 No centro da praça há uma estatua enorme de D. José I que contrasta com o Arco Triunfal da rua Augusta logo atrás. É uma imagem muito bonita, diferente das paisagens que estamos acostumados a ver no Brasil, principalmente o arco que teve sua construção concluída em 1875 e tem uma frase marcante grafada em latim que significa “Às virtudes dos maiores”, mensagem que representa bastante a cultura europeia.

Adiante, tenho que falar sobre o rio Tejo, que mais parece um mar do que um rio (você não consegue ver a outra margem dele) com navios cargueiros e transatlânticos passando a todo o momento, o que talvez explique a formação de pequenas ondas percebidas em suas margens.

 Ao logo de todo o rio, tem umas escadinhas onde é possível sentar e contemplar a paisagem, aliás, o que não falta em Lisboa são lugares para sentar e refletir, ver o tempo passar, e o melhor, sem se preocupar com roubo, insegurança ou pedintes. Claro que em alguns lugares você encontra sim pessoas pedindo esmola, geralmente são ciganos ou imigrantes de outros países que foram em busca de uma vida melhor na cidade, mas continuaram à margem, num país diferente do seu.

Além disso, percebi que a venda de drogas no país é bem escancarada apesar de não ser liberado uso de maconha em Lisboa. Geralmente, e na maioria das vezes foi o que eu vi, as praças ficam cheias a noite e esses mesmos imigrantes passam a oferecer, sobretudo, haxixe.  Mas, não se engane, pela manhã também vi ciganos oferecendo e muitas vezes é algo bem constrangedor, você está passeando com seus amigos e do nada vem um cigano oferecer droga.

Mas, voltando ao turismo positivo, depois de passar quase que a tarde toda contemplando o rio Tejo e vendo o pôr-do-sol , retornamos ao Arco Triunfal e adentramos a rua Augusta, uma das principais e maiores ruas de Lisboa. Nela estão concentrados variados tipos de lojas e você pode andar calmamente pelo local, pois os carros não trafegam por ali, apenas pelas transversais.

Outro fato curioso é que em Lisboa como um todo tem uma quantidade grande de artistas de rua, mas não são desses tipos que a gente vê em Feira de Santana, fazendo qualquer bobagem para ganhar umas moedas.  Lá o trabalho é realmente bem feito, se imitam estatuas, por exemplo, são bem produzidas, se optam por música, a interpretação é sensacional; de fato as pessoas param para admirar a apresentação do artista e “abrindo um parênteses” aqui, vale salientar que moedinha em Portugal vale dinheiro!  Para vocês terem uma ideia, cheguei a comprar camisa com moeda de 1 euro. Os produtos são muito baratos quando comparados ao Brasil. Não só produtos de beleza, objetos, vestuário como comida também.

Depois, desse passeio, fomos ao shopping Colombo e fiquei surpresa com o preço de um combo com refrigerante, duas fatias de pizza e sobremesa na Pizza Hut, imaginem: 5 euros. Aí alguém pode argumentar que se for transformar a moeda vai ficar quase que equivalente ao preço do Brasil, mas gente, calma aí, o preço pode até ser caro para turista, mas pra quem ganha em Euros é super barato! A qualidade de vida em Lisboa é muito boa, não vou dizer que você encontra emprego fácil e que os salários são os melhores, mas com pouco você tem um poder de compra gigante.

Eu fiquei assustada também quando entramos pela primeira vez em um supermercado lá.  Já de cara você não vê filas exorbitantes, não tem caixa, você compra os produtos, você mesmo passa no registrador e você mesmo paga, tem máquina que recebe dinheiro e já te devolve o troco ou pode optar pelo cartão de crédito, lembrando que lá não existe parcelamento, tudo deve ser comprado ou no débito ou em 1 vez no crédito. A cada visita entre as prateleiras um susto, quase nada passava de 2 euros e você tem acesso a marcas e produtos de qualidade, sem falar no tamanho, enquanto aqui você paga 12 reais por um desodorante Dove pequeno, lá eu comprava um bem maior por 3 euros.  Depois disso, a sensação que eu tive realmente foi a de que estamos sendo assaltados a todo momento em nosso país, triste realidade.

Neste segundo dia, a última parada foi no estádio da Luz, casa do Benfica, um dos maiores times de Portugal onde jogam dois brasileiros, o Júlio Cesar, nosso ex-goleiro da seleção e o baiano Talisca. Fomos até lá comprar os ingressos do jogo e fiquei encantada com a organização do estádio, tudo muito limpo, venda de produtos do time em lojas grandes e de marca como Adidas, e o que mais me chamou atenção foi um monumento em homenagem ao jogador Eusébio, ele é como se fosse o Pelé de Portugal, mas impressão que tive é que os portugueses reverenciam mais seus ídolos, isto porque meu amigo me contou a história da estatua que fica em frente ao estádio.


Ficamos parados contemplando a estatua do Eusebio, ela estava rodeada de cachecol dos torcedores do Benfica, além de mensagens e demonstrações de afeto e admiração pelo ídolo. Nosso Mineiro, contou que logo que souberam do falecimento do jogador português em janeiro de 2014, e vale lembrar que ele tinha 71 anos, as pessoas começaram a colocar as lembranças em volta da estátua e com um gesto muito bonito de respeito ao ídolo e aos seus torcedores, os diretores do estádio resolveram colocar uma proteção em volta da estátua e ali permaneceu assim, com todos os objetos deixados, por mais de um ano. Digo isso, porque depois que voltei ao Brasil, vi há alguns meses a notícia de que o memorial foi retirado e posto no museu do clube, mas a estátua se encontra lá.

Eu não concordei com essa retirada, era muito bonito observar a demonstração de carinho que ali se encontrava e por certo momento senti algo bom dentro de mim quando estive em frente a imagem, e confesso que senti  também uma pontinha de inveja, pois deve ser gratificante ser lembrando com tanto amor. Vale lembrar que esse ato não se restringiu ao momento da morte, mas ainda hoje, em todos os jogos do Benfica, os torcedores o homenageiam, levam faixas e gritam por seu nome. A importância de Eusébio para o futebol português é incomensurável. 

Obs: Pessoal, desculpem a demora para atualizar o post, mas estou sem computador :( 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O que dizer de Lisboa?

Como descrever uma viagem no tempo, foi a primeira pergunta que fiz antes de iniciar esse texto. A resposta eu ainda não obtive, pois aquilo que nos parece distante e inexistente quando se torna realidade, demora algum tempo pra ser digerido.

Dia 07 de janeiro pisei em solo Europeu pela primeira vez. Nem desejava uma viagem dessas, porque no meu imaginário eu jamais conseguiria um dia estar em um lugar distante do Brasil e o motivo sempre foi questões financeiras mesmo. Nunca imaginei um futuro brilhante, cheio de riquezas próximas a mim e não tinha contato com essas manias de desejos sobre coisas de fora, beleza, roupa, comida, mordomia.

Todavia, para minha felicidade, fomos a Lisboa, eu e o meu marido. A viagem tinha conexão em Madri e de fato descemos naquele aeroporto gigante chamado Adolfo Suarez. Precisávamos nos alimentar e paramos numa lanchonete próxima ao portão de embarque. Tinha suco, pão, muito pão, saladas e vários tipos de doces. Escolhemos o mais comum, um misto e no momento de pagar, a surpresa: uma máquina que recebia dinheiro e já dava o troco automaticamente, sem intervenção humana.  Olhamo-nos assustados, coitados, completos peixinhos fora d’agua, poderia dizer alguém ao ver a cena. Foi o primeiro impacto, que já anunciava o mínimo com o qual nos depararíamos nessa viagem.

Tudo parecia encantador, construído com materiais de primeira qualidade, saguão impecável, limpeza ao extremo, brilho, muito brilho. O tempo foi curto para mais análises, embarcamos no avião.

A aeromoça agora deixava de falar espanhol, já reconhecia um aparente português identificável por certo sentido, porém diferente, tanto pelo sotaque rápido e de esforço atípico, como por algumas palavras desconhecidas.

Olhei a janelinha e podia ver as casinhas brancas e coloridas lá do alto, muito parecidas com as do Pelourinho, mas com um visual digno de uma casa bem cuidada.

Estava ansiosa para sair, respirar o ar europeu e quando as portas se abriram, a sensação do frescor no rosto se eternizou em minha mente. Consigo parar nesse exato momento e me enxergar de fora, como telespectadora de uma cena de novela, daquelas bem românticas, em que as jovens parecem estar eternamente flutuando, era assim, exatamente assim que eu me sentia, flutuando.

Fazia 9 graus, eu não possuía um casaco próprio para o legitimo inverno e claro, senti muito frio. Se pudesse voltar no tempo, já teria ido com três tipos de roupas: uma camisa de algodão por baixo, em seguida algo feito à lã e por fim, um casaco corta vento.

Nosso amigo Mineiro nos recepcionou, senti-me feliz por ter “um igual” no território a fora. Ele e sua esposa foram responsáveis pelos direcionamentos mais fantásticos por Lisboa. Mostrou-nos logo de cara como era sair de um aeroporto diretamente para o metrô ou metro sem acento como dizem os nativos.  

Fiquei preocupada com a mala, imaginando que as rodinhas não iriam aguentar passar pelas calçadas, os paralelepípedos nas ruas, os desnivelamentos... Nada, nada disso. Calçadas lisas compostas por um tipo de pedra portuguesa quase que escorregadia, mas não o era. Ao meu ver, parecia que cada pedrinha tinha sido cuidadosamente unida uma com a outra, no intuito de ninguém tropeçar ou sofrer com a falta de alguma delas. As calçadas não tinham divisórias, aquele espaço no chão era de fato público e não escancaradamente particular como no Brasil.

Descemos na estação do Baixa Chiado, nome do bairro onde ficaríamos durante 15 dias. As cores dos edifícios e calçadas me chamaram atenção, era um tipo bege exuberante, mas com discrição, que combinava perfeitamente com o clima frio da local e das pessoas. Não se via  muito sorriso como diariamente vejo no Brasil.

Continuamos a andar, e passamos por uma rua cheia de lojas, marcas famosas, Zara, restaurantes e a famosa estatua de bronze em homenagem a Fernando Pessoa. Parecia incrível, e como se não bastasse, vejo a bela visão de uma praça, com um monumento enorme em homenagem a Camões.  Sinto que estou no lugar certo.

Desculpe leitor, o exagero de detalhes, mas preciso registrar cada segundo daquele lugar, pois você visitar um local completamente diferente da sua realidade, te chacoalha, te deixa um tanto quanto bobo, extasiado, algo parecido como ingerir uma comida de tempero sensacional e não tomar liquido a fim de não perder o sabor.

Chegamos ao hotel, de nome Evidencia localizado próximo ao elevador da Bica. Impressionou-me o lugar pela decoração diferenciada, um verde selva que se misturava com cinza em forma de papel de parede, mas não era. Na verdade, uma pintura em lona que revestia as divisórias. Adesivos de gatos espalhados pela escada, além das estatuas também em homenagem ao animal. Quarto pequeno, mas extremamente aconchegante; banheiro diferente por conter ducha ao invés de chuveiro, mas depois descobri que era assim na maioria das casas do lugar.

Chegamos ao final de tarde e já escurecia, era o aviso ou primeiro sinal de como os dias passariam rápidos em Lisboa. Fomos à primeira volta como turistas, sem o peso da mala, mas armados com câmeras fotográficas que capturariam o nosso recorte daquele visual. Muitos flashes, e não paravam, porque tudo era muito bonito, muito diferente, desigual. Mais uma vez a necessidade eternizar cada segundo daquele momento.

Jantamos no Chimarrão, uma churrascaria brasileira que servia além de uma picanha maravilhosa, saladas diferenciados, estilo local mesmo.E ficamos surpresos com o valor da refeição, comemos rodizio por apenas 11 euros por pessoa. Surpreendente também o valor do vinho, pedimos uma garrafa, e não saiu por mais que 5 euros. Mais tarde descobriríamos que a gastronomia da região é muito barata e divina.

Depois disso, caminhamos bastante pelas ruas, observamos o Elétrico, um meio de transporte antigo, parecido com um bondinho  que trafega pela cidade. Destaque diferencial, ele traz um toque pitoresco a Lisboa, é marca. Não dá pra lembrar das ruas e não vir a mente os trilhos por onde passa, levando a alegria de um amarelo que destoa do pálido bege local.

Contemplamos as árvores sem folhas, levadas pelo inverno, podíamos perceber como de fato se representava aquela estação do ano, já que na Bahia, ela é quase que imperceptível. O tom melancólico da natureza era o que faltava para definir o equilíbrio do ambiente. Incrível, como tudo parece combinar, até mesmo o que não pode ser manipulado pelas mãos do homem.

Logo depois, paramos no Bairro Alto, nossa passagem por lá foi incrível. Ruas lotadas de pequenos barzinhos, do tamanho de um quarto, mas perfeitamente decorados, seja em estilo reggae, seja em estilo underground, o clima era de atração, encanto por todos os lados. Curtimos a noite, mesmo cansados de 12 horas de viagem. Fomos fisgados por uma jam session, simplesmente, a banda tocava músicas pop, conhecidas, aí chegava um carinha com uma guitarra arrasando no solo, horas depois outro com um trompete e assim desenrolava o som. Todos dançando num ritmo estranho, completamente desconexo, mas de fato encantador.

Fomos dormir quase que três horas da manhã, traduzindo a frase anterior, passamos 24 horas acordados! E por incrível que pareça não existia cansaço. Nossas mentes não paravam de comparar, era exagerado o bem estar que nos fazia aquele local. Acho que nenhuma droga no mundo podia proporcionar o prazer que a cada segundo era injetado em nossas veias só de vivenciar um pouco de Lisboa,

Calma, essa foi apenas a primeira impressão, parece que estou narrando vários dias, mas relatei somente horas de percepção. Vou finalizar esse texto por aqui,  pois gostaria de descrever dia por dia, serão muitos capítulos, afinal há muito o que se dizer sobre esta bela cidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Permanecer no passado e não voltar

Eu estava bem com o meu passado, sentia-me a pessoa mais feliz do mundo. Não digo que não aproveitei e queria voltar, não é esse o significado, eu apenas queria permanecer lá por muito tempo.

Certa vez, assisti a um filme, não lembro o nome, onde o personagem principal podia voltar no tempo através de uma viagem no guarda-roupa, era um dom que só a família dele herdava. Agora estou eu aqui invejando essa linhagem fictícia, que poderia muito bem tornar-se realidade.

 Eu não consigo me encaixar no futuro, faço parte de um quebra-cabeça onde a parte principal que se liga a mim foi destruída, portanto, não se completa mais. Sinto como se não pertencesse a esse tempo, falta tudo, está vazio.

A pergunta agora é como sobreviver num vazio de lágrimas?

Nado tentando buscar respostas, os porquês não se desfazem, é difícil entender uma monstruosidade quando não há justificativa.

Não fizeram uma limpeza animal, dilaceraram mãe e filho ao mesmo tempo. Cada vez que fecho os olhos, lembro das imagens, do último suspiro, do meu coração arrancado a força.

Espero conseguir superar, está sendo difícil.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Adeus, meu pequeno Marley

A partir de hoje devo me acostumar a acordar sem lambidinhas no rosto, barulhinho de “rum rum”,  gestos de carinho e miados de pedido, seja de “mãe, estou com fome ou mãe, abre a porta”.

A gente se conforma com a morte quando ela vem de forma natural, sem intervenção do homem, a famosa morte por envelhecimento. Diferente disso, meu pequeno Marley, gatinho de seis meses, foi brutalmente envenenado por chumbinho.

De acordo com a Lei nº 9677/1988, a venda do produto é considerada crime contra a saúde pública, mas infelizmente a fiscalização brasileira de um modo geral é precária e com isso, pessoas continuam utilizando o veneno seja para matar ratos, ou matar o filho do vizinho ao lado.

Marley era um gatinho super inteligente, ele só faltava falar. Eu sei que essa frase clichê é comum entre as pessoas que criam animais, mas ele não foi meu único bichinho, eu tive muitos gatos nesses 27 anos e sei que ele era realmente especial. Ele miava de um jeito que parecia falar “mamãe”, tinha expressões faciais diferentes para cada situação, era carinhoso, companheiro, ainda mais porque eu fico a maior parte do tempo sozinha, estudando, e ele sempre deitava do meu lado para não me sentir só. Às vezes, quando eu estava no quarto lendo, ele ia brincar no jardim, adorava caçar formiguinhas, baratinhas e tudo que se movimentasse perto dele, mas nunca deixava de se preocupar comigo, de meia e meia hora ele voltava para me ver, observava se estava tudo bem e voltava para o jardim.

Ontem foi Natal, passamos o dia todo juntinhos, eu só levantei da cama para ir almoçar e ele também. Assisti vários documentários ao seu lado, ele dormindo e eu aprendendo, mas sempre contemplava a beleza dele, a ingenuidade, a infância presente ali. Era lindo demais meu amorzinho.

À noite, eu saí do quarto para beber água e ele me acompanhou. Retornei, mas ele quis ficar na sala. Fechei a porta do meu quarto e deixei ele lá, pois Marley era acostumado a dormir na sala.

Pela manhã, fui ao banheiro e achei estranho ele não chamar, pois qualquer barulhinho ele acordava e pedia para entrar no quarto. Não dei a devida importância ao sinal e voltei a dormir. O despertador tocou às 06:30, meu noivo levantou e abriu a porta, percebeu que tinha fezes por todos os lados e Marley se debatendo por conta do veneno. Tentamos pegar ele, mas estava muito nervoso, salivando espuma, chegou a me morder.

Até que conseguimos pegá-lo, com o auxilio do vizinho que tem mais experiência. Além disso, ele nos aconselhou a dar ovo para ele.  Enquanto isso, meu noivo tentava achar uma clínica veterinária aberta, ligou para todas relacionadas no Google, mas só às 07:30 conseguimos atendimento.

Marley já estava muito debilitado, não parava de se debater, mesmo sem forças. Ele estava respirando com muita dificuldade, parecia que tinham sugado toda sua energia. Ele lutou o máximo que pode.

O veterinário aplicou um soro anti-tóxico e outros remédios, mas vi meu bichinho perder a vida diante dos meus olhos, pouco a pouco, perdendo os movimentos e por fim a respiração.

Eu não desejo a ninguém uma morte tão sofrida, muito menos para uma criança, como foi o caso do meu bichinho.  O ser humano que fez isso, com certeza faz maldade com qualquer um, não tem alma, sentimentos ou qualquer tipo de compaixão alheia.

A partir de hoje minha vida se resume em saudade.


Te amo meu amor, descanse em paz.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

2014 - Um ano marcante

Hoje fiquei pensativa com os vídeos compartilhados no Facebook sobre 2014. A maioria estava elogiando o período e eu não sabia o que dizer, porque foi um ano atípico para mim.

Primeiro abri 2014 com uma viagem maravilhosa em Morro de São Paulo e depois passei um período em Santa Catarina, inclusive visitando o Beto Carrero World, o qual eu era louca para conhecer.

Em abril, saí do emprego decidida a só voltar a trabalhar depois que passasse em um concurso; continuo na meta, firme e forte.

Mas, junho foi o período mais crítico da minha vida, pois passei pertinho da morte. Talvez todo mundo que tenha passado por isso se sinta feliz por ver o sol nascer de novo, contemplar a natureza, o dia, a vida.

Depois que saí da UTI e retornei pra casa, minhas prioridades mudaram o foco, eu não ligo mais para certos materialismos, e, diga-se de passagem, eu era extremamente consumista, aliás, ainda sou um pouquinho, mas por livros, portanto, roupas, sapatos, bolsas, só têm valor se for presente e de gente especial.

Esse ano foi puro isolamento, passei 80% do período em casa, sozinha, com meu gato, estudando, lendo muito, assistindo vídeo-aulas, fazendo exercícios, quebrando a cara, mas sem muito contato social, apenas com a família. As visitas de amigos eu deixei pra depois.  A disciplina exige sacrifícios, e o pior foi esse.

Retomei a escrita no blog, antes faltava inspiração? Não sei, talvez com o planejamento mais assertivo do tempo e menos cansaço proveniente de trabalho, minha mente voltou a desejar se expressar de forma pública e aqui estou eu. Engraçado que sempre analiso as visualizações do blog e mesmo sem comentários vejo que tenho um público diário aqui, mas que não gosta de se expressar, meus leitores são tímidos? Gostaria de entender...

O ano da Copa no Brasil, como poderia esquecer a goleada da Alemanha? O 7x1 vai ficar guardado na memória e em seguida as confusões nas redes sociais em função das eleições, da ideologia política, do sentimento de mudança e o medo de retroagir.

Um ano de muito, muito conhecimento!  E já no finalzinho retomo minhas habilidades musicais com a volta da banda. Se for parar para analisar, acho que tive mais aspectos positivos do que negativos, mas o pior momento que passei na vida foi dia 15/06/2014, e teve um peso considerável nas minhas ações atuais e futuras. Não vou definir, portanto, como um ano positivo, mas como um período de grande aprendizado, sem sombras de dúvida, marcante. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Minha tia morreu

Não é comum ir a funerais. Acho que a média de visita a enterros da minha família está entre 1 e 2 por ano.  Mas sempre fico muito pensativa quando presencio a morte ou a falta de vida num ser estendido no caixão.

A minha tia morreu ontem. Ela estava internada na UTI desde sexta-feira e acabou não resistindo a uma falência múltipla de órgãos. Em vida, ela era uma senhora muito carismática, alegre e era o tipo de pessoa que onde quer que fosse sempre conversava assuntos positivos. Ela não gostava de falar mal de ninguém e até mesmo se fosse convidada para um almoço e a comida estivesse ruim, ela dizia que estava boa, não gostava de magoar nem de criticar.

Quando entrei na sala e a vi no caixão, sem vida, com um batom fortemente vermelho na boca, como de costume gostava de usar, fiquei pensando na história de vida de seus 89 anos.  O quanto de experiência morria ali junto com ela. Quantas passagens aqueles olhos viram, noticias que presenciou, amores que viveu e amigos que ensinou. Olhei profundamente seus olhos, cerrados, e fiquei com vontade de saber mais, de ter conversado mais com ela. Infelizmente, morávamos distante, não tínhamos tanto contato. Acabei não conhecendo o tanto que gostaria sobre sua vida.

O funeral estava repleto de velhinhos e senhoras, amigos, irmãos, parentes da minha tia. Todos enalteciam a pessoa que ela foi, contavam algumas histórias, como por exemplo, quando ela veio a Feira de Santana e meu pai foi buscá-la na rodoviária de moto. Imagine, uma senhora de 80 e poucos anos numa moto? Só meu pai mesmo... e todos riram porque  não duvidavam do espirito aventureiro dela. Apesar de estar num velório, todos sorriam bastante por conta dessas histórias e não eram poucas quando se tratava de dona Nilza Alcântara.

Logo após, uma padre chegou para rezar a última missa na presença daquele corpo. Ele tinha um jeito estranho, pedante, como se soubesse de todos os mistérios do mundo. Falava com o nariz arrebitado, chegou a criticar as pessoas que pensavam de forma diferente sobre a morte. Ele insistia que a minha tia não estava morta, que ela ia ressuscitar, assim como Jesus Cristo. Citou que a casa de Deus tinha espaço para todas as pessoas e que deveríamos acreditar nele. Era um tipo de consolo que não me convencia e nem as pessoas que estavam ali, mas eram palavras bonitas, que por certo momento, nos ludibriam para não enxergar a realidade. Mas, mesmo assim, a dor não era menos intensa.

Ele terminou a missa e logo depois os funcionários do cemitério vieram buscar o caixão. A parte mais triste para mim é ver o corpo trancado naquela caixa de madeira. Enquanto estamos no velório, e ela deitava ali, parece apenas dormir, não caiu à ficha. Mas quando fecharam o caixão, senti uma dor mais intensa, aquela que dizia que nunca mais você iria vê-la e ouvi-la.

Transportaram o caixão até o túmulo. Os funcionários já não tinham sensibilidade com o corpo, transferiam a matéria de uma maneira tão brusca que pude sentir a cabeça de minha tia chocando-se com a madeira do caixão. E para eles, era um ato normal, diário. Não reclamei, também nem sei se outros tiveram a mesma percepção, preferi não comentar. Mas me senti triste com aquele tratamento final.  A gente sempre espera um contato cuidadoso, mesmo para os mortos.

Despedi-me das pessoas presentes e retornei a Feira de Santana com tantos pensamentos sobre a vida e a morte que a cada dia entendo mais sobre a brevidade da vida. Espero que eu consiga viver tanto quanto minha tia e ser lembrada de forma tão positiva quanto ela.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Impressões de uma concurseira

Essa minha jornada de concursos é engraçada, fico reparando em todos os detalhes que acontecem antes da prova. Ontem mesmo, fui a Salvador participar do processo seletivo da Petrobrás e me deparei com novas sensações antes do momento decisivo.

Não conhecia o local da prova, meus pais me levaram, ficamos um pouco perdidos, mas com a ajuda do GPS conseguimos chegar lá, “Santo GPS”, é tão bom não precisar incomodar as pessoas nas ruas para perguntar para que lado fica tal lugar.  

Enfim, cheguei lá com uma hora de antecedência conforme instrução do edital, comprei uma garrafinha de água que nem de 500ml era e custava R$ 2,00, as pessoas estavam se matando para conseguir comprar uma, além disso, tinham aqueles que deixam tudo para a última hora como comprar caneta, lápis, doces, e outras guloseimas.  

Eu acho uma boa iniciativa para quem quer ganhar um dinheiro no final de semana, vender comida e bebida para concurseiros, o negócio rende viu...  Para vocês terem ideia, eu fiz a prova em Salvador e meu irmão foi para São João da Mata fazer concurso também.  Ao contrário do meu local, ele teve dificuldade até para comprar água, pois fez a prova na zona rural, e como era um domingo, não tinha nada aberto, a sorte foi que ele levou um biscoito, mas poucos foram os candidatos que tiveram a mesma atitude.  

Segundo ele, o pior foi na saída, pois estavam todos com fome, querendo almoçar para retornar para suas cidades de origem e não tinha nada aberto. Encontraram um barzinho, bateram na porta, imploraram para a dona do estabelecimento abrir, mas ela não queria porque estava com dor de garganta. Os clientes insistiram dizendo que ajudavam a retirar os produtos gelados e ela, enfim, decidiu realizar o desejo dos consumidores.

Enquanto meu irmão enfrentava esse problemão, eu estava na Faculdade de Direito da UFBA, aguardando o horário certo. Não quis entrar na sala logo, fiquei sentada no corredor, observando as pessoas, fazendo o julgamento dos meus concorrentes, será que aquele sabe muito?  E aquela menina lendo apostila agora, será que vai adiantar alguma coisa?

Reparei também que todos os fiscais e coordenadores estavam de branco, não perguntei o motivo, o mais fácil seria responder sobre identificação, mas fiquei supondo justificativas mais interessantes como promover a paz através da cor, que o espirito do local não fosse de competição, mas de união; ou talvez que tivessem transferido o uso do branco da sexta de Oxalá para o domingo.

Faltavam, mais ou menos, uns 20 minutos para começar. Resolvi ir para a sala, já tinha analisado o ambiente demais, era o momento de reconhecer o local de aconchego das próximas 4 horas.

Como de costume pediram minha identidade, fiquei com medo que tivesse algum problema com a foto, pois na carteira eu ainda estava ruiva e hoje sou loira. Além disso, tinha um rapaz na minha frente que não conseguia encontrar o nome dele na lista, ele se chamava Igor, e tinha muito Igor para diferenciar dele. 

Como meu nome não é lá muito comum, acharam logo e acabei entrando primeiro do que ele.
Peguei meu cartão de respostas, assinei a frase, que nem me lembro mais qual era,  acho que não era boa,  afinal não me impressionou. Fiquei parada um momento escolhendo o lugar ideal, gosto de sentar na frente, tenho medo que os outros olhem minha prova, escolhi o noroeste da sala. Apesar de ter um espaço grande, as pessoas começaram a sentar próximas de mim e isso estava me incomodando. Não saí do lugar para não ser deselegante, mas confesso que fiz a prova o tempo todo com o braço servindo de escudo.

Estava me sentindo preparada e logo que entregaram o caderno de questões, fiz o procedimento de praxe, conferir se todas as perguntas estavam em ordem, se estava faltando algo. Gosto de me precaver.
Como tudo estava certinho, comecei a prova e logo me deparei com uma prova de português focada em gramática, muito diferente das provas anteriores que se utilizaram de interpretação de texto em sua maioria. Matemática era quase 75% da prova, estava confiante, pois nos últimos meses eu estava quase virando uma calculadora ambulante.  Mas não estava nada fácil, deu trabalho sair da sala até para ir relaxar um pouco, tinha muito calculo para fazer. A parte de gestão de pessoas, contabilidade e licitação eu gostei. Vamos ver como será o resultado.

Enfim, o texto não foi para falar das matérias, mas das impressões anteriores a prova, espero que vocês não viagem tanto quanto eu nesses momentos tensos da vida. Ou será que é melhor ficar observando tudo para não lembrar do que vem pela frente? 

   




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

80% dos jovens afirmam que a mulher não deve ficar bêbada em festas

Certa vez, escrevi uma música simples, mas que demonstrava todo o meu desconforto em ser mulher no Brasil. Não por pertencer ao gênero, longe disso, eu adoro ser mulher, mas pelas condições a que somos submetidas diariamente.  Nessa letra, escrita há pelo menos oito anos, eu dizia: “homem quando quer, fica com quem quer, já eu, não posso mais ficar, minha cota não posso ultrapassar, sou mulher e daí, diferente de mim, você não é não, faço o que quero e quero é andar na contramão”.  E sabe qual era o meu maior desejo na época? Que ela se tornasse ultrapassada, antiga, fora de contexto para quem ouvisse hoje. No entanto, mesmo depois de tanto tempo ela continua atual.  

Prova disso foi uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (3), realizada pelo Instituto Avon e Data Popular com 2.046 jovens de 16 a 24 anos de todas as regiões do país – sendo 1.029 mulheres e 1.017 homens.

Nesse relatório, 96% dos internautas afirmam viver em uma sociedade machista.  Então, se vivemos numa sociedade desse tipo, temos que a todo o momento combater a atitude patriarcal do país, no entanto a mesma pesquisa reflete que o entendimento sobre o machismo, talvez não esteja tão claro assim, afinal  68% dos entrevistados dizem achar errado a mulher ir para a cama no primeiro encontro, 76% criticam aquelas que têm vários "ficantes" e  80% afirmam que a mulher não deve ficar bêbada, em festas ou baladas.

Então quer dizer que homem pode ir para cama no primeiro encontro e a mulher não? Homem pode ter vários ficantes e para a mulher a mesma atitude é reprovada?  Ficar bêbada , nem pensar, é muito feio! Então por que 96% acham que vivem numa sociedade machista se nas outras respostas acabam reforçando o próprio machismo?

Não sei como a pesquisa foi feita para encontrar um percentual tão contraditório, mas acredito que não seja um erro de dados. A própria sociedade em que vivemos expõe uma liberdade limitada como se fosse integral e reforça outros pontos relacionados ao machismo. Nas novelas, até quando eu acompanhava alguma, percebia blocos que contestavam pragmatismos, mas que incutiam preconceitos em outras cenas.  A própria discussão política no país, em determinado ponto, chegou a negativar uma visão sobre Dilma se a mesma ampliasse a reflexão sobre o aborto em seu governo.

Acredito que muitas mulheres sintam-se oprimidas, mas em poucos casos como violência doméstica, assédio, nudez. Geralmente, quando se trata de sexo e corpo da mulher o machismo é bem forte. No entanto, em diversos aspectos da vida há controle, mas que por vezes não é percebido, pois as próprias mulheres já se acostumaram com tal concepção como é o caso das questões levantadas na entrevista.  Toda vez que a liberdade de gêneros é comparada, o preconceito só aumenta.

Por isso a importância da mídia nesse aspecto é fundamental, pois precisa mostrar ao público feminino que a liberdade tem que ser objeto de ambos os lados. Toda vez que um blog, um site ou uma revista discute casos corriqueiros, eles promovem a reflexão do cotidiano, demonstrado que alguns conceitos na verdade são preconceitos disfarçados. A novela seria ideal para debater esses pontos, afinal a audiência ainda é grande e a linguagem é de fácil acesso. Infelizmente, os pontos debatidos são aqueles que transmitem visões sensacionalistas, apenas para chamar atenção por chamar.


Então caro leit@r, depois de uma pesquisa como esta, só acredito na necessidade de que mais blogs surjam como o EscrevaLola Escreva, Cem homens em um ano, revistas como a TPM, Carta Capital e Caros Amigos também ajudam nesse quesito. E você que ainda não teve coragem de criar um blog, comece divagar, sem obrigação e aos pouquinhos vá ampliando o foco. Quanto mais informação, mais livres seremos e só conquistaremos nossa liberdade quando a maioria tiver a mesma visão e se colocar no lugar do oprimido.  

Obs: Quem tiver interesse na música, segue o vídeo:


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Uma simples declaração de amor

Sinto um prazer tão grande quando escolho um filme e nós dois aprovamos o conteúdo.  Às vezes acredito na felicidade do compartilhar compartilhando. Eu nunca tinha entendido isso antes, mas quando a gente distribui algo e o outro gosta juntamente com você, o sentimento é mutuo. A mesma vibe, o mesmo som, isso se aplica a tudo. Quantas vezes nos distanciamos com as diferenças banais do dia-a-dia? Não lembro e nem gosto de recordar, mas sei de todas às vezes que nos aproximamos através de uma música, de um show, de um filme ou até mesmo um livro. Certa vez, ele colocou Bob Marley no som e a partir de então não paramos mais de ouvir, assim juntinhos, sentindo a melodia tocar ambos.  A praia também traduz um significado especial, a beleza do mar, a infinidade da natureza resplandece o nosso amor. Não acredito no pra sempre, porque como disse Renato Russo, ele sempre acaba, por isso acordo todos os dias com a necessidade de viver cada segundo como se fosse o último, aproveitando cada momento, tentando entender o máximo possível desse amor, dessa vida. Refletir sobre isso, me faz reforçar a tentativa constante de desacelerar meu tempo e continuar compartilhando, pois dividir faz bem aos dois, e quanto mais a gente multiplica informações entre nós, mais a gente se ama.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Precisa ter lógica?

Eu quero que saia de mim até agora o que eu não vi. Está aqui dentro em chamas, mas não consigo expulsar. Se é algo bom ou ruim, eu não sei.  Às vezes não é necessário explicar, basta mostrá-lo ao mundo.  Mas, fico me perguntando se as pessoas estão preparadas para fatos sem explicação ou significado. Que mania terrível esta do ser humano de tudo encontrar lógica! Eu não quero associar alguma coisa a outra, eu só quero apresentar o desconhecido, ao conhecido. É pedir demais?

Esse florescer parece causar alívio e também conhecimento para quem degusta novidade. Mas, tenho certeza que quando estiver em vida, vão apontar teorias, análises psicológicas e se possível até matemática para decifrar-lhe, e com isso acabarão estragando sua beleza. Mas e se eu estiver errada, e se essa boniteza toda for ilusão minha? Será que ficaria mais belo com todos esses argumentos em prol da exatidão? Não sei, sou descrente, prefiro o nada, o inabalável, o inexplicável.  

Tentei dividi-lo em pedacinhos para não chamar tanta atenção, mas conexões importantes formaram uma rede bem elaborada que, se destroçada, esboçaria universos de universos, ainda sim, sem explicação. Detalhes que se entrelaçam, características que se interceptam, valores agregados ao nada, sem limitação, sem exatidão. E se isso tudo parecer não ter fim, não há problema, é a lógica do incompreensível, me desculpe, ainda sim, sem explicação. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Interpretação do filme Teorema Zero

Eu adoro filmes que deixam interpretações variadas ou até mesmo dúvidas. Foi o que aconteceu com “Teorema Zero” do diretor Terry Gilliam.  O filme se passa numa cidade super colorida, inundada por propagandas e tecnologia avançada que deixam o espectador um pouco desnorteado.

O personagem principal, interpretado por Christoph Waltz é ainda mais complexo, ele é um nerd antissocial que vive para o trabalho, onde busca descobrir a solução para o Teorema Zero.

Qohen, como é chamado, é muito aplicado, segue as ordens à risca, mas com o desenvolver do filme, começa a questionar melhorias para si, como a de trabalhar em casa, sozinho, onde poderia obter uma produtividade maior do que na empresa. Além disso, ele espera ansioso por um telefonema que poderia orientá-lo sobre a vida e por isso precisa estar em casa.  Em partes, ele está certo, pois seu trabalho não depende de mais ninguém. No entanto, se ele já não gosta de estar em contato com as pessoas, em casa ficaria mais solitário ainda.


Existe também no filme, a figura do gerente, o cara que ninguém tem contato, mas que todos respeitam e temem por ser o representante da empresa. Ele representa a figura de um Deus, no que diz respeito a manipulação da vida das pessoas e a onipresença. É o ser supremo do filme.

Já Qohen, assim como os outros, são os alienados religiosos, que deixam de viver para seguir as ordens do Deus. Neste caso, o gerente ordena que eles descubram a resposta do Teorema Zero, que significa a busca do significado da vida, que na verdade não tem um significado religioso ou um Deus controlando o destino das pessoas. Isso fica claro, no momento em que Qohen passa a viver.  Primeiro ele é convidado pelo seu supervisor a comparecer a uma festa, onde poderia ter a chance de conversar com o gerente.  Mas, o ponto principal da festa é que ele encontra uma moça e se encanta por ela.

Com a descoberta do amor, ele tem o foco do trabalho desviado e mantem um tipo de sexo virtual na internet com a garota. Ainda sim, ele continua buscando a resposta do teorema, mas não como antes.
O problema também é que o teorema é indecifrável e Qohen fica frustrado com isso, pois ele sempre teve um nível muito bom de resolução dos cálculos. Podemos também interpretar esse sentimento como o indecifrável sentido da vida. Por mais que busquemos a solução, não conseguimos decifrá-la, por mais inteligência que o ser humano tenha, não há uma resposta científica, comprovada, única.

Outro ponto interessante do filme são as viagens que Qohen faz no universo da garota e em seu próprio universo, onde ele descobre uma imensa solidão e ela tenta arrancá-lo de lá. Esse vazio é representando por um universo sem planetas, estrelas, é o verdadeiro vácuo do ser.

Em outro plano, Qohen acaba destruindo a máquina que projeta seus cálculos e lhe dá acesso a internet com uma explosão. Um buraco se forma e ele descobre dentro do local um universo de pessoas, cada um no seu espaço. Ele fica encantando e se joga nesse lugar, onde na minha interpretação, ele encontra o sentido da vida, ou seja, o aspecto social do homem.

Nesse momento, o gerente aparece e informa a Qohen que não existe significado para o teorema, os cálculos são incontroláveis, ele não pode controlar mais ninguém.

E o momento que eu acho fantástico e que fecha o filme de maneira brilhante é quando Qohen acessa o universo da garota, representado por uma praia, e fica comtemplando a paisagem. Depois, ele começa a brincar com uma bola dentro do mar, jogando-a para cima e para baixo, até ver o sol. Ele pega o sol e faz os mesmos movimentos que estava fazendo com a bola, ou seja, agora ele sabe que pode controlar a própria vida, ninguém mais o aliena.

Enfim, o filme é fantástico, cheio de metáforas e significados, o tempo todo tentamos buscar uma lógica para as cenas, que talvez a interpretação que eu tenha exposto aqui não seja a verdadeira intenção do autor, no entanto me proporcionou prazer ao ponto de considerar Teorema Zero como uma obra de arte que mexe com os nossos sentidos e provoca reflexão. Pra que mais?

domingo, 2 de novembro de 2014

A desvalorização do idoso no Brasil

Hoje estava assistindo uma matéria sobre longevidade no Youtube e acabei conhecendo o programa Canal Livre com o Boris Casoy, que particularmente, eu nunca tinha assistido antes. Já no primeiro momento, fiquei encantada com a forma de se abordar um assunto, desconstruindo clichês e dando visibilidade a pontos de vistas diferentes.  Digo isso, porque geralmente quando se trata de longevidade, os jornalistas optam pela entrevista de um médico ou qualquer profissional de saúde, mas o entrevistado do dia foi o filósofo Mario Sergio Cortella.

Já conhecia o filósofo de outras entrevistas na televisão brasileira, e sou suspeita para falar do profissional, pois gosto muito da abordagem que ele faz sobre diversos temas, que infelizmente não cabem nesse post. Mas voltando ao tema longevidade... A discussão sobre o assunto foi bastante produtiva e me chamou atenção à parte em que eles refletiam sobre a aposentadoria compulsória. Como se sabe, no serviço público, os profissionais quando completam 70 anos de idade são obrigados a aposentar-se.  E aí vem a questão: por que a nossa sociedade desvaloriza tanto os profissionais idosos, se é nesse momento da vida onde estão acumuladas as mais valiosas experiências? Não seria mais inteligente, aproveitar essas pessoas na função ou posicioná-las como conselheiras?

Vejamos o contraste do nosso país, com, por exemplo, o Japão.  Neste país, a velhice é tão valorizada, ao ponto de se ter um feriado Nacional de Respeito ao idoso. As mulheres mais velhas quando questionadas sobre sua idade, respondem sem nenhum tipo de constrangimento, pelo contrário, quanto mais idade, mais orgulho, reflexo de muita sabedoria. Lá, existe uma política voltada para o incentivo ao idoso, em que ele continue praticando atividades físicas, dirigindo, passeando, etc. Talvez por isso, o Japão tenha também o maior número de pessoas centenárias no mundo, segundo o Ministério de Saúde, Trabalho e Bem-Estar local elas somam quase 59 mil, sendo 87% delas, mulheres.

 No Brasil, a situação é diferente, e me assusta o culto ao corpo que estamos vivenciando hoje. As pessoas estão valorizando demais a pele esticadinha, a barriga sarada e o corpo bonitão em detrimento da saúde mental. Os asilos estão cheios, cada vez mais se percebe o distanciamento da família com o idoso. Eles são descartados como um objeto qualquer, sem valor. Mas e as memórias? E as experiências? Com quem estamos aprendendo?

Muitos jovens estão se gabando dos inúmeros títulos, das experiências profissionais, dos metrados e doutorados da vida, como se o fruto da sabedoria fosse apenas o conhecimento acumulado. E com isso, estamos cada vez mais passando para um momento da vida onde pessoas estão cheias de verdades, que acreditam ser absolutas. Se Sócrates estivesse vivo e morasse no Brasil, estaria de cabelos em pé, com tantos “intelectuais”.  Acabou a fase do “sei que nada sei”, estamos na era do “sei e ponto final”.

A demonstração disso foi o embate nas discussões políticas das últimas eleições presidenciais, as pessoas não sabem mais discutir sem humilhar, convencer o outro com argumentos e não com títulos. Por que tanta gente brigou em função da diversidade de opinião? Será um reflexo dessa nova era? Uma era marcada pela falta de paciência, virtude esta tão praticada pelos idosos.

Acho que já tivemos alertas demais sobre a sociedade absurda na qual estamos vivendo. Não seria o caso de reavaliarmos alguns conceitos e posicionarmos mais a reflexão dos idosos em determinados assuntos e setores? 

Uma emenda constitucional está propondo a extensão do limite de idade da aposentadoria dos tribunais de 70 para 75 anos. Já é um grande avanço, mas infelizmente são interesses políticos que estão em jogo e não a valorização desses profissionais. Tanto que a PEC só atinge juízes e não o serviço público como um todo. Não vou aprofundar esse assunto, mas lendo a matéria da Folha dá para se ter uma conclusão dessa jogada.

Enfim, vale a pena refletir sobre a questão, lembrando que os idosos também não representam a verdade absoluta, mas, como o caminho que eles já percorreram foi maior do que nosso, podemos tirar alguma lição disso.













quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Só mamãe sabe fazer?



Há diversas atividades que geralmente são apontadas como masculinas ou femininas pelo senso comum. Por exemplo, lavar roupa. Há quem diga que só mulheres sabem tratar desse assunto.  Aí eu te pergunto... você, homem, que mora sozinho ou até mesmo aqueles que moram em conjunto e cuidam das tarefas de casa, vocês não sabem lavar roupas?

Acredito que não. Seria inferiorizar demais a capacidade de um homem.

O trabalho não é tão difícil assim, principalmente se você tiver uma máquina de lavar. Basta colocar um pouco de sabão e amaciante, conforme a marquinha indicativa no aparelho, e pronto, a fórmula está perfeita!  Depois é só apertar o botão iniciar e começa o processo de lavagem.  Se aparentemente o procedimento não for compreendido, não tem problema, toda máquina vem com manual de instruções, super fácil de aprender.  E convenhamos, hoje em dia com internet em casa, todo mundo sabe um pouquinho de tudo, basta pesquisar.

Então, qual a necessidade de uma marca de roupas colocar na etiqueta o aviso: “Para entender melhor a simbologia de lavagem acesse www.usereserva.com/cuidadoscoma roupa ou dê pra sua mãe, ela sabe como fazer isso bem”?

Por mais que a gente queira entender que a marca tinha as melhores intenções, e de acordo com o Corrreio24horas, tenha explicado que o motivo da instrução “é ressaltar que nenhum cuidado é tão especial quanto o cuidado de mãe. E que ninguém trata com tanto carinho da gente como elas”, ela acaba reforçando estereótipos que precisam ser desconstruídos.

Estamos em pleno século XXI, já não existe mais um conceito padrão de família e suas limitadas atribuições. Tanto homens como mulheres fazem o que escolherem, existem especialistas em cada área, sim! Mas o gênero não determina esse conhecimento e sim a experiência, o interesse da pessoa em  aprender e fazer.

A partir dessa reflexão, a marca foi alvo de muitas críticas e o fato foi noticiado em diversos meios de comunicação. Tenho certeza que alguns vão achar que isso é bobagem e que não merecia atenção, mas são pequenos detalhes como este que se passam despercebidos, continuam reforçando preconceitos.

Até chegar ao ponto de uma mãe pedir ao filho ajuda para lavar roupa e ele negar dizendo ser “coisa de mulher”.  Lavar roupas é o mínimo, existe um somatório de ações negadas por homens com essa mesma desculpa para ajudar a lavar os pratos, jogar o lixo fora, arrumar a cama, fazer a mala para viagem e por aí vai..

Portanto, termino esse texto com o ditado Fashion: “menos é mais”! O mínimo faz diferença sim, precisamos sempre chamar atenção para todo tipo de preconceito, já avançamos muito e podemos avançar ainda mais.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O amargo jornalismo brasileiro

Difícil acreditar num jornalismo diferenciado depois das últimas eleições, onde a mentira e a parcialidade escancarada se manifestaram nos veículos de comunicação.  Em todas as universidades do país onde o ensino de jornalismo é realizado, prega-se a imparcialidade, ou seja, o mínimo de interferência pessoal do jornalista. Sabemos que não podemos deixar de lado nossos valores ou nossas crenças pessoais quando produzimos um texto, mas precisamos ser objetivos com o leitor para que ele decida o que é importante para si ou para o Brasil através dos fatos e não da manipulação de informação.

É triste ter visto a maioria da imprensa brasileira apoiando um partido e não mostrando o outro lado da moeda, o que seria plausível para uma escolha definitiva do eleitor. Os números de abstenção e votos nulos demonstram também a incredulidade das pessoas nos candidatos, muito por conta da mídia, onde todos já sabem manipuladora e inverídica. 

BRANCOS  1.921.812 (1,71%), NULOS 5.219.604 (4,63%), ABSTENÇÃO 30.137.317 (21,10%).

A soma desses percentuais representa 27,44% da população que não fez questão de escolher um lado, que está descrente com a política, que não acredita mais num partido ou num representante.  Pessoas que não conseguem formar uma opinião, muito por conta desse processo de manipulação das informações. Como acreditar num candidato lendo matérias que mentem o tempo todo, que são tendenciosas, moralistas ou incapazes de permitir uma reflexão profunda sobre o futuro do Brasil?

São períodos como este que depredam a credibilidade do jornalismo brasileiro e isso deve ser refletido tanto pelos estudiosos da área como por aqueles que fazem parte dos veículos tendenciosos. Acabou a era da manipulação, o povo não acredita mais, a internet está contribuindo para a desmitificação de todas as mentiras.  É necessário repensar a forma de se fazer jornalismo, retomar os valores desta profissão que se bem utilizada contribui de maneira eficaz para o futuro da humanidade.

Eu espero que essas eleições tenham sido um marco sobre a reflexão do jornalismo brasileiro e que a mídia comece a mudar a maneira de agir a partir daí.